Penichense anima "Preço Certo em €uros"
Raquel, 70 anos, e Antonieta, 55 anos (foto da esquerda), cumpriram o sonho de ser fotografadas com Fernando Mendes. Antonieta até foi mais longe no cumprimento dos seus desejos e concorreu pela segunda vez ao concurso."Não peço muito mais que uma televisão, pois a da sala está avariada e agora só tenho uma pequenina na cozinha", segredou Antonieta, 55 anos, ao JN, sentada entre os cerca de 180 potenciais concorrentes de "O preço certo", da RTP1. Antonieta é uma repetente neste programa, em que a ideia é acertar nos preços de vários produtos ao longo de uma hora de emissão. Quem concorre tanto deverá saber o preço de uma depiladora quanto o de um automóvel. Pelo meio, há de tudo, como vassouras eléctricas ou telemóveis. Antonieta já lá tinha estado, mas na altura o programa ainda era apresentado por Jorge Gabriel e chamava-se "O preço certo em euros".
"Não consegui ir longe, pois falhei o preço de uma botas. Custavam 65 euros e disse que custavam 55, e assim houve quem ficasse mais próximo do preço certo", lembrou esta reformada da indústria conserveira, que trouxe um grupo de Peniche para concorrer.
"Beijinho ao Fernando Mendes"
O exemplo da verdadeira fã de Fernando Mendes foi dado por Antonieta "A minha sogra, Celeste, de 89 anos, não perde um programa. Uma vez tive que lhe dar um copo com água e açúcar, quando o Fernando Mendes colocou na cabeça umas cuecas que alguém lhe tinha oferecido", lembrou, partilhando sonoras gargalhadas com as restantes mulheres do grupo. "Estava a ver que lhe dava uma coisa, ela ri-se imenso com ele e mesmo o meu marido fica todo irritado quando vê os concorrentes a falhar o preço dos objectos".
Toda a conversa com Antonieta e amigas foi-se desenrolando durante os preparativos de gravação, enquanto a produção do programa ia distribuindo os lugares do estúdio da RTP. Por entre idosos, novos, meia-idades, quase todo o Portugal está representado na assistência. "Mas o Norte é a zona que mais concorre", lembrou um elemento da produtora Fremantle. Nessa tarde, foram gravadas três edições de "O preço certo", usando o mesmo público, que troca de lugar nos intervalos.
A apoteose
Fomos encontrar Fernando Mendes encostado a uma mesa de matrecos, um dos artigos que iam a concurso. O apresentador parecia meditar, alheio a todo o rebuliço. "Este programa vive muito da capacidade de interagir com o público, o concorrente ajuda muito a animar o programa", contou. Para Fernando Mendes, há um certo toque de "teatro de revista" neste "programa popular, que também chega muito aos mais novos e também aos intelectuais, que eu sei que eles também vêem", referiu, acrescentando que quaisquer "críticas por ser 'popularucho' passam-me ao lado". Fernando Mendes reconheceu que, "após mil e tal programas, está tudo inventado".
Pouco depois, a apoteose Fernando Mendes entra, de camisa branca e suspensórios, e é recebido em gritos e palmas. "O que é que este programa é?", perguntou a certa altura. "Um espectáculo", respondeu o público, em uníssono.
Sorridente, Antonieta voltou a ser chamada, mas de novo as coisas não lhe correram da melhor forma, acabando por não receber qualquer prémio. "Interessa é participar e a minha sogra vai adorar ver--me na televisão", concluiu, com bom espírito.
"O preço certo" alimenta planeta dos bem-dispostos. Serviço público?
É um sucesso de audiências e, antecedendo o Telejornal na grelha da RTP1, dá um grande contributo para manter elevado o número de espectadores quando começa o principal noticiário da estação pública. Mas muitos questionam o papel deste programa de entretenimento no âmbito do serviço público de televisão a que a RTP está obrigada contratualmente. Por exemplo, Francisco Rui Cádima, investigador de assuntos dos média, tem insistido há anos na sua tese "'O preço certo' não é serviço público de televisão".





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